“The Mask you live in”

NETFLIX

Usando o cinema e a comunicação social como catalisadores da transformação cultural, o The Representation Project pensa em como a mudar as normas acerca de novas estratégias de intervenção na educação e ação social. 

The Mask You Live In é um filme/documentário lançado neste contexto que segue crianças e jovens enquanto lutam para permanecer fiéis a si mesmos enquanto negociam a definição estreita de masculinidade dos Estados Unidos. Pressionados pelas pessoas, pelas próprias famílias, e até pela comunicação social, estes jovens revelam as dores de enfrentar mensagens que os encorajam a desligar-se das suas emoções, desvalorizar amizades autênticas, objetivar e degradar mulheres e resolver conflitos através da violência.

As narrativas que vestem, perpetuadas em estereótipos, interligam-se com a raça, classe social e circunstâncias, criando um labirinto de questões de identidade que as crianças e jovens devem navegar para se tornarem homens “reais”. É uma construção da realidade que guia as relações consoante uma construção global social que dita os valores e significados de características humanas.

Especialistas em neurociência, psicologia, sociologia, desporto, educação e comunicação social, bem como pais e educadores, contribuem também para a percepção destas narrativas e das relações que se desenvolvem com nelas baseadas.

O documentário The mask you live in” dá-nos luzes acerca do poder das narrativas que adoptamos, tanto a nível social como a nível individual, sempre com o enfoque no impacto da correspondência a essas narrativas nas relações pessoais e nas expectativas que se tornam intrínsecas e que vão ditar os contornos das relações familiares que construímos.

Daqui, podemos reflectir a condução de processos terapêuticos sistémicos com foco na mudança de narrativas, na criação e aprendizagem de ferramentas que permitam às famílias encontrar-se em novos discursos e olhar-se em histórias mais satisfatórias e que promovam um relacionamento mais satisfatório entre os elementos do sistema.

“Ele usa uma máscara, e a sua cara molda-se a ela…”

Essa máscara pode ser entendida como uma forma de visão de si próprio, que nos foi proposta através dos sistemas em que vivemos, com contornos e cores previamente estabelecidos, e na qual nos integramos, moldando-nos àquela percepção dos eventos, àquele significado da vida e das vidas que nos rodeiam.

Esta pressão para nos moldarmos às narrativas que recebemos, através da comunicação social, da educação e, de forma tão forte, da família (como sendo uma forma segura de sobreviver), é descrita como o recurso de o ser humano se orientar relativamente a uma história que conhece, a uma narrativa que o segura e ajuda a criar “balizas” que orientem a formação da nossa identidade. Como seres relacionais, buscamos de forma constante criar a nossa personalidade em relação com o outro, aprendendo desde cedo a identificar o que nos é familiar e desejável, em oposição ao que queremos rejeitar e, de alguma forma, aprendemos que nos é indesejável.

O indivíduo que aparece no documentário dando início aos relatos testemunhais, refere a primeira memória que tem do momento em que aprendeu o que era ser homem. Através deste testemunho podemos compreender a força do que aprendemos como “desejável” para nós, a importância de encaixarmos nas expectativas geradas pela narrativa do que é ser homem ou ser mulher. No entanto, o que verificamos com esta história é também a dificuldade sentida por quem não consegue corresponder a uma narrativa que o rodeia desde tenra idade, provocando contradições internas, frustrações e até o exacerbar de características auto-fabricadas que o permitem sustentar os mitos do seu sistema familiar.

Torna-se importante pensar sobre o resultado relacional da expectativa de um menino se criar um ser “não emocional”, que atribui à masculinidade o significado de controlo e dominância. Perpetuando o significado atribuído a esta narrativa, podemos criar a hipótese de uma relação de dominância com o sexo oposto, em busca de uma conjugalidade assimétrica no poder e de uma comunicação fraca no recurso ao diálogo e ao reconhecimento e valorização das emoções próprias e do outro.

Se um rapaz cria a sua noção de masculinidade envolvido numa narrativa de rejeição das emoções, poderá esperar relacionar-se numa relação conjugal de forma a desvalorizar essas mesmas emoções? E se a esse homem for dado espaço para se ligar com as suas emoções, introduzindo o sentimento de segurança no significado destas mesmas emoções e na imagem de si mesmo, poderá sentir-se capaz de respeitar os sentimentos do outros e os seus de forma mais satisfatória?

“A masculinidade (…) é a rejeição de tudo o que é feminino. Desde o início que somos ensinados, como rapazes, a controlar as emoções. Não podemos falar sobre os nossos medos… Não podemos falar sobre o que nos magoa. Podemos falar sobre o que nos chateia. Podemos falar sobre ficarmos zangados. Não podemos falar sobre estarmos tristes. Se não choramos, todos os sentimentos ficam fechados em nós e não os conseguimos expulsar. Nós é que os colocamos naquela trajetória através da nossa cultura e de como somos pais, como os educamos e através das ideias que lhes passamos,” Dra. Lise Eliot (Neurocientista)

Esta reflexão volta a colocar o problema da identidade e da criação de relações intimas com base na valorização de características masculinas e femininas que colocam homem e mulher em hierarquias desiguais, desvalorizando as emoções, sentimentos e o diálogo como parte exclusiva do universo feminino. É uma narrativa das relações que atribui grande significado à capacidade do homem em negar as suas “características femininas”, tornando-se homem por oposição às qualidades “fracas” da mulher. Segundo os especialistas do documentário, a maneira como os rapazes são educados obriga-os a esconder todos os sentimentos naturais de vulnerabilidade e empatia atrás de uma máscara de masculinidade.

O papel do terapeuta deve passar por ajudar os clientes a despirem a roupa que os limita ou que os deixa inseguros, co-construindo narrativas que servem àquele sistema, que promovem relações interpessoais (de poder, de hierarquia, conjugais…) satisfatórias e nas quais as pessoas se vêm e se encontram numa esfera de segurança. (Rivero, 2013).

O que estamos a ensinar estes rapazes sobre as raparigas?

Como forma de reflexão acerca das expectativas que estes rapazes terão no desenvolvimento de uma relação a dois, podemos pensar no impacto que teria para os casais que se formaram com base nestas visões de si e do outro, em encontrar um espaço de criação de novos olhares sobre os sentimentos e as emoções e os problemas, que lhe permitam cultivar a empatia e o diálogo na criação de uma narrativa comum.

Também o documentário nos leva a pensar acerca da sexualidade que chega aos jovens, tanto pela ausência de diálogo na família, como pela oposição deste “silêncio familiar” à exposição do tema na tão disponível e acessível pornografia digital. Por causa da educação sexual, focada na abstinência e da vergonha à volta da sexualidade da nossa cultura, a pornografia é, para muitas pessoas, educação sexual.

Em minha casa, não choramos. Se mostramos emoções, somos fracos. Se nos magoam, aguenta. Nada de queixinhas. Tudo girava à volta do dinheiro. Não importava se eras mulherengo.

Esta associação da masculinidade com aspectos como a com a capacidade atlética, o sucesso económico ou com as conquistas sexuais é, segundo os especialistas, um olhar que engana as crianças e os leva a procurarem no outro alguém que se reveja como mais fraco, cujos sentimentos não são valorizados e que dissocia a actividade sexual da intimidade e das relações emocionais.

Quando esta é a expectativa que trazemos para uma relação íntima, ocorrem riscos de divergência e desequilíbrio satisfatório aos elementos da própria relação. Quando casais chegam a um processo de terapia com as narrativas do que é ser casal baseadas nestes pressupostos que lhes são intrínsecos, e que podem em nada se ajustar às suas verdadeiras necessidades emocionais, é chave a co-construção de uma narrativa comum no que diz respeito à intimidade, ao poder e aos papéis de cada membro do casal.

“Tem sido muito difícil desempenhar os papéis de mãe e de pai do Jacksen. Ensinaram-me que os homens são duros, são fortes. Passei muitas noites a chorar, porque ele tinha sentimentos e eu tinha de lidar com isso. E um dia percebi, porque o Jacksen disse-me: “Pai, sou sensível.” E eu pensei: “Está bem. Está bem.” Então, comecei a ler muito, a pesquisar no Google sobre como ser sensível e assim.

Este poderoso testemunho de um pai que se vê “obrigado” a voltar a olhar para a sua história e criar uma história nova para a geração seguinte, dá-nos pistas extremamente claras acerca da importância da construção de novos significados para as histórias que trazemos. Aqui, vemos o poder e a necessidade de criar. Criar através da procura de uma forma diferente de lidar com as questões que se repetem, criar respostas novas a problemas antigos; encontrar novas palavras para que sejam atribuídos significados diferentes a dificuldades pelas quais já passámos, dando uma oportunidade a que estas dificuldades não se tornem limitações e, em vez disso, acrescentem ao sistema relacional empatia, diálogo e segurança.

Quando construímos em família as nossas relações, as nossas próprias histórias podem ser novas e reajustadas ao que precisamos para nos sentirmos seguros. A necessidade sentida por este pai de pesquisar “formas como lidar com sentimentos”, de forma a estar disponível para o desenvolvimento de intimidade e corresponder às necessidades do outro, que bebe das nossas narrativas, é um espelho disso mesmo.

Se criamos a nossa história com base na correspondência ou não a estes aspectos fatuais, para os quais nos ensinam a olhar e sob os quais nos medimos, damos-lhes um significado poderoso e que determina o nosso sentimento de adequação (ou frustração) às expectativas. Ao mesmo tempo, levamos esta narrativa como guia para a construção da realidade.

Dando às pessoas a possibilidade de alterar esta história, de recolocar os eventos e factos numa posição hierárquica ou temporal diferente, estamos a dar-lhes a possibilidade de criar e mudar a sua realidade.

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