Sobre o meu irmão

Ontem foi o dia dos irmãos e eu, como tanto tenho o vício de fazer, preferi projectar e pensar nos meus filhos como irmãos que são , do que escrever sobre o meu irmão.

Mas sinto que não fui justa comigo própria. Nem com ele.

Foi com ele que aprendi o que queria (e o que não queria) que os meus filhos fossem como irmãos!

Esta experiência devo-a a ele (e aos nossos pais, que lhe quiseram dar uma irmã mais nova, claro!)

São só dois anos e meio de diferença de idade, mas bem podiam ser dez ou vinte anos que nos separam. Sempre senti que o mundo inteiro nos separava, lembro-me desde bem cedo saber que somos como água e azeite: até nos podem forçar a estar juntos no mesmo copo, mas nunca nos misturamos e somos diferentes no nosso âmago!

Fora algumas brincadeiras de infância em que a criatividade dele me seduzia ao ponto de me querer implicar na brincadeira em papeis sempre secundários: eu era sempre a secretária do sr. Dr., a ajudante do Nadador Salvador o responsável pela torre de vigia, a telefonista do escritório…

Mas fora isso, que imaginação tinha eu para fazer outra coisa???

De resto, o tempo era passado em conflito/afastamento. Eu sempre sem perceber porque é que não me queria ver bem…acho que aprendi que quero que os meus filhos tenham amigos em comum, façam actividades em conjunto, desenvolvam interesses em comum, para construírem pontes entre as suas individualidades.

Ele sempre o bom aluno que ia abrindo o caminho para eu, com os mesmos professores, perceber, consecutivamente, que não cumpria as expectativas.

Tantas vezes me senti um fracasso e uma desilusão que comecei a convencer-me que era um trunfo, uma particularidade que não me ia desiludir a mim. Confesso que até me chegou a dar um certo gozo…”ah, então acham que eu vou ser como o meu irmão? Então vão ver…”

Enfim, de uma forma ou de outra, encontrei no antónimo dele a minha identidade. Sob o preço de uma auto-violência brutal, claro, porque era significativo de menos competência, interesse, capacidade ou entusiasmo.

Lembro-me bem de ele me perguntar “mas como é que tu és assim???” indignado com a contradição do próprio.

Assim fomos crescendo, cada vez mais afastados e com menos em comum (forçadamente orgulhosos disso), mas sempre com pena.

Eu não podia contar com ele, quando tinha algum problema na escola ou em casa, não contava com ele. Quando estava sozinha, até em casa estava sozinha.

E nas coisas boas, era como se não nos conhecêssemos.

[Tenho a certeza que este é só o meu sentir disto tudo, não tenha ainda confiança suficiente em mim para dizer que isto era assim tão linear ou óbvio.]

Até que, ao sairmos de casa, nos começámos a quer juntar. Foi preciso fada um se tornar autónomo para encontrarmos pontos em comum.

Jantarmos juntos só porque sim, mandar mensagens ou ligar por algum assunto. Os filhos também nos ajudaram a olhar uma para o outro com mais respeito (dele para mim) e com mais vulnerabilidade( de mim para ele).

Mas a vida ainda só nos estava a dar um cheirinho do que é isto de sermos irmãos!

Recebi, realmente, um irmão quando, com um ano ou dois de diferença, casa um de nós ficou sozinho.

Aqui, comecei a ter um irmão. Alguma coisa mudou e eu estava ali para ele, incondicionalmente, e ele era das poucas pessoas que conseguiu aceitar a minha verdade e dar-me a mão. Das pouquíssimas, porque a vida quando aperta, muitos saltam fora!

Alguém a quem peço alguma coisa que precise, com quem não é estranho estar, a quem ligo só para saber como está. E ele a mim.

Foi preciso ficarmos sozinhos para os laços que nos uniam nos trazerem um para o outro.

Eu nem sei ainda o que terão os nossos pais feito bem ou mal, mas agora tenho um irmão que é o melhor dos melhores amigos.

Aquele com quem posso chorar sem ter de explicar porquê, que sei que me vai defender, e em quem confio de olhos fechados.

Obrigada, vida, por me trazeres as pessoas que eu sempre quis das formas mais inimagináveis possível!

[Já sei que ele me vai dizer duas ou três palavras doces e fica arrumado este assunto, mas assim fica escrito]

Cordão Umbilical Eterno

“Tenho de cortar o cordão umbilical”, ouço eu em consulta.
E na verdade, reajo com optimismo perante tal consciência!
O que será isto então de viver com o cordão umbilical a unir-te a uma figura parental?
Com mais frequência vemos isto acontecer com as nossas mães, por isso falamos desta ligação de dependência como um cordão que nos unia a ela quando nascemos (e nos primeiros tempos de vida, ainda na gestação!)
Alguém que precisa de aprovação ou cuidados por parte da mãe/pai já em idade adulta para se sentir seguro (em relação a si próprio ou ao mundo), não se conseguiu diferenciar como pessoa autónoma dos seus pais e desse cuidado vital.
Muitas razões podem levar a termos, então, como “vital” esta necessidade de presença próxima e de aprovação por parte de quem nos criou. A verdade é que, quase sempre, implica que não estamos bem preparados para nos ligarmos noutras relações que podem surgir, de forma absoluta e sem o tal cordão que remete a nossa fiel e exclusiva vinculação a quem nos fez nascer.
Quando não passámos por uma infância segura e/ou por uma adolescência que nos permitiu a separação de nós dos nossos pais (ou de algum deles), nunca sentimos a verdadeira segurança em estar longe mas ligados, em sermos autónomos sem que o amor tenha a mesma importância.
Como pais, podemos também esclarecer-nos sobre o caminho que queremos permitir aos nossos filhos traçarem.
Estamos a criar crianças e jovens que se vão sentir seguros na sua autónoma?
E serei eu alguém que vive com esta força umbilical a exigir que regresse, ao final de cada dia, ao colo da minha mãe?
Se precisas de ajuda para te esclareceres ou para alterar estes padrões de relação,
TEMOS DE FALAR.

Terapia Individual Sistémica

Eu? Porquê?
Eu até tenho uma família. Tenho filhos saudáveis! Tenho um trabalho. Não tenho de me queixar. Porque é que não hei de estar bem?
Porque somos seres em relação.
Porque, para estarmos bem, precisamos de um equilíbrio difícil entre todos os fatores que constituem o Eu: as emoções, relações, heranças, comportamentos e pensamentos.
A terapia individual olha para nós como um sistema que se relaciona e relaciona em si todas as dimensões que temos em nós, fazendo um balanço entre o que recebemos da geração anterior e o que passamos para a geração seguinte.
Acredito que, se alguma das dimensões da nossa vida se desequilibra, todo o nosso ser estará num esforço imenso para uma compensação, para reequilibrar a nossa alma.
Precisamos de compreender o que nos rodeia e o que, deste mundo exterior que trazemos connosco, nos marca e nos leva a padrões e necessidades de amor tão únicas, para podermos dar-nos ao outro de forma inteira e sincera…
Para podermos descobrir uma forma de contar a nossa história que nos deixe mais capazes, mais iluminados sobre o que somos e para onde queremos ir, de uma forma saudável e eficiente.
Aqui, nasce um espaço onde não cabe a culpa, mas o entendimento das emoções como a nossa verdade, onde podemos ir às relações da nossa infância para ajudar a compreender a nossa personalidade, as nossas emoções e as nossas reacções ao mundo.
Quantas vezes revemos os nossos pais na forma como respondemos às situações quotidianas? E na forma como vemos e acreditamos na vida!
Se sentimos que precisas de compreender as nossas relações, a nossa sexualidade, as nossas emoções e o nosso olhar sobre o mundo, a terapia pode ajudar!
A consulta pode ser o início de uma aventura a percebermo-nos no mundo.

Não deixes a culpa entrar

A culpa é uma besta.

É um peso sempre maior do que conseguimos gerir.

Convence-nos de que somos incompetentes e ao mesmo tempo de que temos o super poder de estragar tudo.

Faz-nos esquecer de tudo o que aprendemos e ao mesmo tempo não pára de nos lembrar do nosso erro.

Tem um poder de corrosão invisível que lixa cada um que se deixa apanhar na curva.

A diferença entre a culpa e a responsabilidade é que a culpa paralisa. A culpa não te deixa andar para a frente porque te torna menor. Porque espera de ti que não consigas, e afasta-te do caminho de mudança e esperança.

Não deixes entrar na tua boca, na tua cabeça e no teu coração essa palavra. Ajuda os teus olhos a verem mais e melhor.

Em ti e no outro.

Pratica a compaixão e permite-te crescer e andar. E errar, certamente.

Ai espera, ainda estou zangada!

Quem nunca se esqueceu da razão pela qual se zangou, sem ter ainda esquecido a vontade de continuar zangado?

Às vezes rendemo-nos a uma ambiguidade abismal que me deixa a pensar: afinal, o que é que realmente me importa?

É a punição do outro, que consideramos razoável que ainda esteja no castigo, como compensação por algum erro que tenha cometido? Ou é o encontro entre os dois, para curarmos as nossas feridas e construirmos uma base comum segura?

São aqueles momentos em que, depois de uma discussão a dois, ele passa por mim no corredor e sinto o cheiro dele… “se estivéssemos bem, queria tanto abraçá-lo e sentir aquele quentinho do seu pescoço… mas espera! Ainda estou zangada e ele ainda não merece!”

Acabamos por negar o que EU mereço, aquele quentinho que nos faria tão bem, por causa de uma parte de nós que ainda não confia, ou não se permite confiar. É que ensinaram-nos que a punição ou a retirada de afecto têm resultados absolvedores!

Mas o que o meu corpo e o meu coração precisam agora é de conexão. De voltar a ligar-me ao outro. Daquele quentinho e aquele abraço que, independentemente do que acontece, seriam o único reconforto suficiente.

A ilusão da necessidade de punição a quem nos magoa impede-nos, a nós, de termos o que mais precisamos e, ao outro, impede-o de dar o que naquele momento podia dar.

Podemos e devemos ser os primeiros a identificar estes momentos e a ceder. Bem, nem diria ceder, diria antes, a ganhar e a ajudar o outro a ganhar!

O primeiro a abraçar é apenas o que inicia o gesto. De resto, o abraço dá tanto a um como ao outro.

Vamos abraçar?

Os ciclos do medo

Estamos forçados a estar sozinhos. Sozinhos connosco, sozinhos com o outro, sozinhos sem os amigos ou os pais que nos enchiam a vida.

E temos medo. Medo da doença, da morte, medo do desconhecido, medo de nós próprios, medo de perder.

Medo e solidão juntos são uma mistura explosiva! E o que é que explode primeiro? As bombas nas nossas relações…

Aquele que está sozinho connosco (ou aqueles) é quem se torna o alvo das inseguranças, medos e loucuras que nos atropelam nesta fase difícil. É preciso parar para fazer diferente…parar pode salvar-nos!

Parar, falar, questionar, observar, conhecer, prever e, em tudo isto, PARTIR PEDRA.

Estão a ser despoletados em nós todos os gatilhos que existem nos nossos corações, cabeça e até no corpo. SE e QUANDO nos permitirmos observar e questionar os ciclos de comportamentos a que sucumbimos, conseguiremos criar aqui alguma vida, para podermos construir, e não estar “só” em piloto automático, reactivo e destrutivo.

Dependendo da forma como aprendemos o amor, esta fase de medos provoca em nós necessidades diferentes e buscas muito próprias de provas de amor (em forma de segurança, validação, aceitação, liberdade, confiança, ou o que mais precisarmos).

Para um pode crescer uma necessidade de aceitação por parte do outro, que reconforte a nossa insegurança interna, como se precisássemos que nos digam em tudo “`Quero-te mesmo assim”, “estás a fazer tudo bem”, “admiro-te nisto também”, “esta parte de ti não me assusta”.

Buscamos ser informados de forma constante que nos amam, ainda que seja todo um novo campeonato de facetas que agora aparecem (e exactamente por isso).

Daqui, procuramos em cada interacção esta aceitação e, o mais provável, é acabarmos por pegar em cada gesto, atitude ou frase que não cumpra explicitamente esse requisito, como uma bandeira de prova em como não estamos a ter o que procuramos.

E então? Então defendemo-nos. E por defesa entenda-se, maioritariamente, um ataque a cada passo (para nós em falso) do outro.

E, daquele lado, uma alma que pretende preservar a todo o custo a paz, evitando conflitos destruidores, pode bem reagir de forma legítima a esta “perseguição” da forma que menos nos assegura amor: retirando-se, promovendo o silêncio e “não mexendo mais”.

É que, com este constante ataque (que era defesa, mas que se manifesta tantas vezes de forma interrogativa e até instigadora), alimenta-se no outro a inevitável certeza: “Estou a fazer tudo mal.” Para quem também vive nesta esfera incerta e solitária dos tempos de hoje, ser inundado de ataques constantes de incompetência é, simplesmente, pisar bem a sua ferida.

Naturalmente, segue-se a retirada de quem sente que não está a conseguir acertar no que os outros precisam, que sempre lhe falha alguma coisa, que tudo em que toca se estraga, e, claro, que o melhor será afastar-se.

Reconhecem? Então conseguem também imaginar que é a reacção mais dolorosa para aquele primeiro que só procurava ser aceite e assegurado.

O exercício neste confinamento deve ser constante, da mesma forma que se levou o ginásio para casa, com aulas online e estúdios improvisados:

  • Qual destes é o meu padrão de necessidades, procuras, reacções e gestos?
  • O que é que não estou a conseguir pedir de forma clara?
  • Onde sinto que tenho de me defender e de que forma passo ao ataque?
  • O que é que, em mim, está a fazer-me sentir medo, insegurança, raiva, tristeza,…?
  • Como posso pedir o que preciso?

E, quando conseguimos ir mais longe e se impõe sair de nós:

  • Do que precisas?
  • O que é que te faço sentir?
  • Como é que te posso ajudar?
  • Com estas reacções do teu lado, sinto-me…
  • Preciso que me faças sentir aceite/competente/amado/compreendido/apoiado …

Agora é pensar: onde e quando queremos praticar esta ginástica?

O casal e a chegada de um filho

O Casal e a chegada de um filho

A chegada de um filho é uma alegria tão grande que tendemos a esquecer que não somos super-homens nem super-mulheres. Continuamos a gostar demais de confundir alegria e felicidade com facilidade e instinto natural.

Hoje em dia assumimos que o casal beneficia de uma preparação para o que aí vem: como dar banho ao bebé; o que ter na mala da maternidade; que mudanças físicas e biológicas podemos esperar no corpo da mulher durante a gravidez; como preparar o quarto do bebé… e fala-se já muito de dificuldades no pós-parto, bem como no apoio a esta fase complicada para os recém-nascidos e recém-pais. E ainda bem que oferecemos sem vergonhas uma atenção especializada nestes campos.

Mas o casal e os fundamentos que suportam esta relação também têm de ser cuidados para sobreviver a este período. Não é por acaso que há tantas separações dos pais no primeiro ano de vida dos filhos. É uma fase em que os sonhos e as expectativas mais estruturais se revelam em ritmos diferentes e com emoções difíceis de acertar entre os dois, que muitas vezes sentem que devem deixar o papel antigo para se tornarem pais a 100%.

A fantasia de que um sonho é uma dádiva fácil e sem esforço é fraudulenta e perigosa. Exige esforço, tempo, foco e ajuda.

Um filho não consegue solidificar uma relação que não seja investida. Não vem salvar uma relação que não é prioritária para os próprios elementos dela.

São postas à prova a intimidade, a comunicação, o foco, as tarefas, a energia e as capacidades de cada um e do casal, e é normal que isto chegue com uma grande carga de medo e de ansiedade, que muitas vezes nos fazem retrair na comunicação. Porque estamos à espera, de nós e do outro, e porque achamos que o outro espera de nós que tenhamos de forma inata a capacidade de lidar com tudo sem queixas?

E, se houver tempo, talvez possamos ser casal em alguns 10 minutos do dia, da semana ou do mês. Mas cheios de medos de não sermos os mesmos, de não serem aceites as mudanças que carregamos no corpo e na mente.

Devíamos olhar para a terapia de casal como uma caixa de ferramentas onde podemos sempre ir buscar aquela chave quando os desafios são grandes. Ou podemos esquecer que somos casal e adiar esse “arranjo” por uns anos…

Devíamos propor a todos os casais que recebem um filho, um acompanhamento a estas mudanças tão grandes, não como um luxo mas como um direito e um dever, como uma parte da preparação e acompanhamento do parto a que atendem quase todas as mães e (alguns) pais.

Devíamos preparar o casal para se proteger de um desligamento da intimidade, de uma invasão das famílias de origem, de uma espiral de cansaço que exclui uma comunicação do eu de forma clara e pura.

Devíamos dar a estes casais tempo de descanso, físico e emocional, com o apoio de alguém que não julga estas difíceis danças a dois.

Isto, claro, se quiséssemos os casais conscientes e felizes. Felizes, com dificuldades e ajuda, mas com a superação e construção de uma relação mais preparada e forte.

O Natal (tão) esperado

Quando chega este tempo e o Natal anda na rua, todos nos sentimos de alguma maneira impelidos a pensar no significado que esta época tem para nós. Mais, somos chamados a fazer esforços, muitas vezes desajustados às nossas reais capacidades, para que não se perca o que o Natal é para nós, para que corresponda ao que todos esperam…

Mas, afinal, o que espero de mim e dos outros? O que anseio e prevejo que este tempo me traga?

E mais, é importante também pararmos para pensar se o que eu espero do Natal é o mesmo que o outro, que vive ao meu lado, espera também.

Quando vivemos em família, convergem as histórias e as vidas (também) do Natal, e abre-se o tempo para criar as nossas próprias tradições – às vezes tão mais simples, tão mais naturais que aquelas a que nos forçamos todos os anos.

Sabendo que vivemos tempos diferentes, porque não aproveitar o “nunca antes visto” para criar e renovar?

Um Natal que nos serve e que nos preenche não é o que esperam de nós, mas o que conseguimos construir com o nosso próprio contributo, gerando vida nova, histórias novas, natais novos!

Como? Sempre com a empatia como motor de mudança, queremos conjugar as expectativas reais. Muitas vezes, isso implica perceber que um tempo que é das crianças (para mim) pode ser (para o outro) altura de lembrar quem partiu, trazendo uma enorme saudade e tristeza, que se renova, quase religiosamente, todos os anos.

Criem tradições que sugiram espaços onde caibam todas as emoções que são importantes para vocês. Respeitem os tempos de alegria, de nostalgia, de família e de amigos que cada um precisa.

Assim conseguimos passar por esta época sem nos deixarmos levar pela correria infernal, demandas gastronómicas e por uma certa alienação consumista de presentes sem dedicação.

Conseguimos viver o tão esperado Natal em Família, da Família, pela Família.

Ser Família sem filhos

Ser família sem filhos é talvez o maior desafio que se pode atravessar na vida de um casal.

É amar o outro sem sonhar mais ninguém. É amar-se a si próprio TANTO que nos sabemos suficientes para o outro, e amá-lo TANTO que ele nos baste.

É ser família largando o controlo sobre o futuro ou sobre sonhos antigos. Abandonar os planos e procurar construir em casal o sentido da existência.

É respeitar a evolução do outro comigo, sem atribuir responsabilidades a demais membros do sistema que “choram à noite e não nos deixam dormir”, que “deixam a mãe tão hormonal e/ou alguém tão dedicado ao trabalho”.

Pode até ser abraçar a sexualidade pelo prazer e ligação ao outro, largando o propósito de gerar filhos (embora gere, sempre, vida).

É acreditar e fazer com que o amor de família se renove sempre nas mesmas pessoas.

Ser família e não pensar em ter filhos é proteger e alimentar a identidade da minha família a dois, e repensar à medida que crescemos os dois, se valemos a pena.

No entanto, tudo isto parece indicado a quem tem filhos também…não?

Não será sempre assim em qualquer forma de família? Não será uma família com filhos o desdobrar em mais pessoas o pouco controlo que temos sobre a vida? Não são esses filhos também prova de que a vida é livre e corre por si, fora das nossas mãos?

E não será o casal que cresce e se fortalece, aquele que descobre que o seu tesouro está no outro e em nós os dois?